Um dos posts que mais recebeu visitas neste blog, antes de seu conteúdo ser esvaziado por um desses malucos da vida, foi a entrevista que fiz com Raimundo Fagner. A matéria havia sido publicada no jornal Folha do Ceará e foi reproduzida no site oficial do Fagner (www.fagner.com.br). Agora estou colocando novamente, para quem não teve a oportunidade de ver anteriormente. Na entrevista, ele fala de sua carreira, desde 1968, quando lançou um compacto em parceria com o conterrâneo Cirino, e notadamente a partir de 1973, após o lançamento do LP “Manera, Frufru, Manera”, antecipou novidades em relação ao seu próximo CD, a ser lançado em abril, sendo provocado também para opinar sobre o atual cenário musical. Confira:
FC – Fagner, qual é o momento que você considera como o início da sua carreira artística?
RF – Eu acho que a carreira artística começa quando a gente toma a atitude de viver da arte. Pensando assim, eu comecei com seis anos de idade, cantando uma música em homenagem ao Dia das Mães num programa da Ceará Rádio Clube. Depois participei de minisséries e programas de auditório da TV Ceará. Aí veio o tempo de tocar violão nas esquinas e nos bares da cidade e, mais adiante, as participações em compactos com o Cirino, o Chico e aquele do Disco de Bolso, além dos festivais em Brasília. Agora, a nível discográfico, eu considero como início da carreira o lançamento do primeiro LP, o “Manera, Frufru, Manera”, em 1973.
FC – Musicalmente falando, como era a sua vida em Fortaleza antes de ir embora para Brasília?
RF – Eu comecei a cantar nas festinhas colegiais e fui me infiltrando com pessoas que gostavam de música, como, por exemplo, o Ricardo Bezerra, meu primeiro parceiro. Aí fui mesclando as apresentações em rádio e televisão com serestas nas esquinas e participações em festivais da Rádio Iracema, o Aqui no Canto, o da Astra…
FC – E hoje, quantos discos você já lançou?
RF – Rapaz, basicamente, desde 1973 todo ano eu lanço um disco. Tem uns 35, contando com os do Luiz Gonzaga e outros que fiz paralelamente. Isso sem contar com as participações nos discos de vários artistas. Somando tudo, dá mais de quatrocentas gravações.
FC – Por falar nisso, você já fez duetos com artistas de diferentes estilos musicais. Vai de Zezé di Camargo a João do Vale, passando por Cazuza, Zeca Baleiro, Beth Carvalho…
RF – Isso soa como uma coisa diferente de todo mundo que faz música no Brasil. Todo mundo traça um caminho, uma trajetória, e eu trabalho essa coisa do Nordeste, sempre respeitando as nossas raízes e procurando abrir e/ou dividir espaços com artistas de várias gerações.
FC – De todas as músicas que você gravou até agora, qual é a sua preferida, aquela que dá mais prazer em ouvir?
RF – “Mucuripe”. Porque ela foi definitiva na minha carreira. Não só por fazer parte do meu primeiro LP, mas por me projetar no país inteiro ao ser gravada pela Elis Regina e pelo Roberto Carlos. Foi fundamental também porque ela me segurou no Rio de Janeiro. Eu já estava quase vindo embora, já estava quase desistindo da carreira, porque as coisas não estavam dando certo. Por mais que outras músicas tenham feito sucesso, “Mucuripe” é a minha preferida, até mesmo pela cearensidade da letra.
FC – Você falou em off que está há um ano em estúdio gravando um novo CD, a ser lançado em abril. Por que tanto tempo?
RF – Estamos fazendo e refazendo tudo com muito cuidado, porque esse disco é muito importante pra mim neste momento. Principalmente porque é o primeiro disco solo que eu faço aqui em Fortaleza, no Estúdio Ararena, que é fruto de uma parceria minha com o Humberto Pinho e o Amaro Pena. Só pra você ter uma idéia, todos os músicos que estão participando são daqui. Somente os metais são de Recife e eu trouxe o Spock (sopros), que me acompanha há vários anos. Estou dividindo a direção e a produção musical com o Cristiano Pinho.
FC – Dá pra adiantar algumas novidades?
RF – Tem músicas minhas com vários parceiros novos e antigos: Fausto Nilo, Clodo, Evaldo Gouveia, Paulo César Pinheiro, Vinicius de Morais, Taiguara, Câmara Cascudo. Tem as participações especiais do Zeca Baleiro e do Jorge Versilo; tem uma regravação de “No Tempos dos Quintais”, que eu gravei com o Sivuca em 1980; tem aquela música que eu e o Fausto fizemos em homenagem ao aniversário de Fortaleza, dentre outras surpresas.
FC – Tem alguma música que você aposta que vai ser a “carro-chefe”?
RF – As pessoas que têm passado pelo estúdio estão gostando mais de uma chamada “Amor e Utopia”. Eu, particularmente, aposto mais em outra, intitulada “Difícil Acreditar”, feita em parceria com o Clodo. O disco tá muito forte, tanto que cada pessoa aponta uma idéia diferente.
FC – Quais são os seus outros projetos para 2007?
RF – Além desse disco, a Som Livre vai lançar uma coletânea só com músicas minhas que fizeram parte de trilhas sonoras de novelas. Devo gravar um DVD, que pode ser no Canecão (Rio), Chevrolet Hall (Recife) ou aqui, no Siará Hall. No final do ano pretendo lançar um trabalho só com músicas natalinas. Tem coisa que nós ainda estamos estudando, porque o mercado da música tá um pouco bagunçado.
FC – Por sinal, como é que você vê a situação atual? Você gosta do que está tocando no rádio?
RF – Eu não tenho nada do que reclamar. O bom cabrito não berra. Ninguém pode forçar a que as pessoas gostem de determinado tipo de música. Tem um lado positivo nisso tudo, que é o fato de estar todo mundo trabalhando. O pessoal do forró daqui, por exemplo, é muito profissional. Muita gente reclama que a música é pobre, mas ninguém nunca ouviu falar que música para dançar deve ser rica musical e poeticamente. E o melhor momento para você lançar uma coisa legal é quando as pessoas estão reclamando que o que está na moda não é legal.
FC – Você não se sente desestimulado para compor músicas para concorrer com esse forró eletrônico e outros estilos do momento?
RF – Eu me sinto é cada vez mais estimulado. Eu acho bom é quando estão reclamando que o ambiente está ruim. Aí é que me dá vontade de fazer coisas boas.
FC – Pra encerrar, queria que você deixasse uma mensagem para os leitores da Folha do Ceará.
RF – Acho ótimo Fortaleza ter mais uma opção de leitura e entrenimento. Nossa cidade é muito grande e não pode ficar polarizada só entre dois jornais, entre dois posicionamentos. O povo tá querendo uma visão diferente do que está acostumado a ter. No fundo, a novidade bem feita é importante. Percebi que vocês estão tentando mostrar coisas diferentes, ou então coisas antigas de um jeito diferente. Eu torço para que a Folha do Ceará faça muito sucesso. E aproveito para enviar um forte abraço para todos os seus leitores!!!