26.3.07
Capítulo 7: Ser ou não ser
Por volta de 1968, o Brasil atravessava uma espécie de revolução em seus aspectos culturais. Os jovens deleitavam-se ouvindo sucessos interpretados por Nara Leão, João Gilberto, Caetano Veloso, Roberto Carlos, Jerry Adrianni, Wanderléia, Celly Campelo, Renato e Seus Blue Caps, The Fevers, destaques dos movimentos emergentes naquela época, entre os quais a bossa-nova, a jovem guarda e o tropicalismo. Lulu era alucinado por música. Além de admirar os astros brasileiros, virou fã incondicional dos Beatles, Elvis Presley e outros estrangeiros como Paul Anka, Neil Sedaka, Rolling Stones etc.
Apesar da pouca idade, já aparentava tendência para desenho, poesia e música. Era aluno aplicado e apresentava-se nas festinhas colegiais recitando versos próprios ou cantando canções dos seus ídolos, com uma predileção pela “A Banda”, de Chico Buarque de Holanda.
Em meio a tudo isso, debatia-se sobre a questão de sua inclinação homossexual e exercitava aquele drama vivido pelos adolescentes, representado na célebre frase de Shakespeare: “ser ou não ser” (to be or not to be). No seu íntimo delineavam-se mil situações por ele fantasiadas caso seguisse esse ou aquele destino sexual. Às vezes, traspassava noites em claro, rogando a Deus uma luz para orientar-lhe à trilha a ser percorrida.
Sabia da reação desfavorável de seus pais se descobrissem ter um filho mariquinha (designação da época para homens afeminados), mas antevia ser o homossexualismo o campo onde se realizaria intimamente. Por isso, perseverava na hesitação cruel: ser homossexual, para impulsionar o fluxo dos desejos correntes em seu âmago; ou não ser, para seguir a tradição heterossexualista de sua família.
No colégio, percebia a formação de rodinhas de garotos, onde todos conversavam em voz baixa e lançavam olhares curiosos em sua direção. Depois, com mímicas provocantes, eles falavam alto:
- Olhem quem vem aí! Será? – indagava um.
- Alguém duvida deste jeitinho desmunhecado? – respondia outro.
- Pode não ser, mas tem todas as ferramentas – reforçava um terceiro.
Ele, afeito a não compartilhar escândalos, simulava desconhecimento das pilhérias.
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criado por juracy.mendonca
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