28.9.07
Chantagem emocional
Já faz algum tempo que o humorista cearense Renato Aragão, utilizando o pomposo título de Embaixador Especial do Unicef no Brasil, envia correspondências para milhares de residências do país inteiro, pedindo doações mensais para ajudar na educação e alimentação de crianças assistidas pelo programa “Criança Esperança”, realizado pela Rede Globo de Televisão. E, neste ano de 2007, o renomado “Didi” resolveu apelar para a chantagem emocional em relação às pessoas que não participam da referida campanha, responsabilizando-as por vários problemas que comprometem o presente e o futuro dos “baixinhos” que atualmente vivem em situação precária nos principais centros urbanos. Num dos trechos, ele escreveu: “Você sabia que, enquanto está lendo esta carta, muitas crianças estão perdendo a chance de se desenvolver e aprender pela falta de investimentos em sua formação?”.
Não há como deixar de louvar a atitude de Renato Aragão em trabalhar em prol das crianças carentes. Porém, esse altruísmo ganharia mais aplausos se o humorista direcionasse os pedidos para quem tem nas mãos o poder de resolver o assunto de forma rápida e eficiente, no caso os governantes e parlamentares espalhados nas esferas federal, estadual e municipal. Ele, como ser humano dotado de inteligência que é, deveria utilizar os espaços que tem na mídia nacional para cobrar soluções por parte das autoridades que administram toda essa dinheirama que entra nos cofres públicos mensalmente em forma de impostos, e que, infelizmente, não prioriza projetos nas áreas de educação e saúde, de uma feita que uma fatia considerável é destinada para garantir os altos salários e mordomias do presidente da República, de ministros, governadores, prefeitos, senadores, deputados federais e estaduais, vereadores e a enxurrada de assessores a que cada um deles tem direito.
É profundamente lamentável que o nosso ilustre conterrâneo empreste seu nome para um papel que, às vezes, beira o ridículo, pois só um idiota não percebe que muitos artistas participam apenas com objetivo de passar para o público a imagem de “politicamente corretos”, enquanto os resultados práticos continuam sendo questionados, pois estão longe, mas muito longe mesmo, de atingir as expectativas anunciadas em clima de oba-ôba nos “plimpins” globais. Alguns defensores do “Criança Esperança” afirmam que pior é ficar de braços cruzados, que cada um deve fazer sua parte, dentre outros argumentos até válidos. No entanto, bem melhor do que isso seria denunciar aos quatro ventos que a grana resultante da maior carga tributária do mundo está saindo pelo ralo, sendo aplicado de maneira equivocada, e, o que é pior, deliberadamente.
Vamos lá, “Didi”. Ainda está em tempo! Como Embaixador Especial do Unicef no Brasil, você pode fazer muito pelas nossas crianças e adolescentes. Basta ter coragem para deixar de lado a chantagem emocional que vem sendo feita em cima de cidadãos comuns (que já são obrigados a pagar imposto até pelo ar que respiram), mudando o foco da cobrança para quem realmente tem obrigação de colocar um fim nesse quadro dantesco.
(Editorial de minha autoria, publicado na edição desta semana no jornal Folha do Ceará)


criado por juracy.mendonca
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