30.1.08
Fortaleza esvaziada
Fortaleza, ao que tudo indica, será mais uma vez esvaziada durante o carnaval. Pesquisas feitas recentemente, em vários canais de comunicação, indicam que, apesar dos esforços empreendidos por órgãos públicos, entidades, artistas e intelectuais comprometidos com o resgate do período momino, a verdade é que cerca de 30% da população vai debandar para cidades interioranas, notadamente aquelas que possuem praias, sendo que uma pequena parte deste percentual pretende fugir da folia, participando de retiros religiosos ou abrigando-se em sítios e fazendas. É interessante ressaltar também que os moradores que vão ficar por aqui não contribuem em praticamente nada para a animação, posto que a maioria esmagadora revelou que não gosta e/ou não entra nas brincadeiras.
Tendo acesso a estes dados, vêm-nos à memória os tempos de outrora, quando a capital cearense era conhecida por sua efervecência no reinado de Momo. Nos clubes, nas praias, nas ruas, praças e avenidas, enfim, nos quatro cantos da cidade, o fortalezense tinha acesso a diversificadas maneiras de curtir a festa, tendo como ponto alto o chamado “corso”, desfile de agremiações carnavalescas na rua Senador Pompeu e, posteriormente, na avenida Duque de Caxias, onde destacavam-se escolas de samba como Ispaia Brasa, Prova de Fogo, Luiz Assunção, os maracatus Leão Coroado, Rei de Paus, Ás de Ouro e tantos outros que os novos tempos se encarregaram de ignorar. Alguns deles ainda hoje tentam, a duras penas, permanecer na ativa, muito mais pela vontade dos integrantes de preservar a tradição iniciada por seus antepassados.
Tudo isso começou a ir por água abaixo a partir da década de 80, quando empresários descompromissados com a verdadeira essência do carnaval passaram a promover eventos em outras cidades cearenses, contando, para isso, com a colaboração das prefeituras, em troca de dividendos políticos e financeiros. E esse é um processo que, infelizmente, parece não ter volta. O povo que antes era habituado a cantar e dançar frevos e marchinhas, hoje é sutilmente “forçado” a brincar ao som de música baiana, forró e outros ritmos que não lembram em nada os toques dos clarins que imortalizaram Zé Pereira. A descaracterização é tão gritante que se alguém perguntar aos jovens de hoje, só por curiosidade, quem foi Zé Pereira, com certeza nenhum deles saberá responder corretamente.
Agora está mais do que provado que Fortaleza ganhou essa pecha de “cidade-dormitório” no referido período por culpa dos nossos governantes. E um exemplo claro disso é o pré-carnaval, que este ano teve mais de 60 blocos, espalhados por todos os bairros, contando com expressiva participação de crianças, jovens e adultos, num clima de muita alegria e descontração. Isso mostra que o alencarino gosta do carnaval autêntico, mas a força da mídia o direciona para outras pairagens, onde passa quatro dias fazendo aberrações que, de tão paupérrimas, são deletadas de sua memória já na quarta-feira de cinzas.
(Editorial de minha autoria, publicado na edição desta semana do jornal Folha do Ceará)


criado por juracy.mendonca
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