25.3.08
Evangélicos melindrosos
A polêmica ganhou o país inteiro! Nos últimos dias, notadamente nos meios religiosos, o centro das discussões tem sido a enxurrada de protestos formulados por representantes de igrejas evangélicas contra as atitudes tresloucadas de uma personagem da novela “Duas Caras”, da Rede Globo de Televisão, que, com a Bíblia na mão, incitou seus vizinhos a tocarem fogo em móveis e espancarem três moradores que, na trama, formam um triângulo amoroso. Tudo isso significa, acima de tudo, mais um capítulo da guerra silenciosa (às vezes, nem tanto) que vem sendo travada há vários anos entre fanáticos ligados às diversas correntes religiosas que grassam por aí afora, e que fica ainda mais acirrada quando uma das partes se sente agredida em suas crenças e valores, pouco se importando em confundir realidade com ficção.
Sem querer tomar partido por essa ou aquela igreja, a verdade é que, no Brasil, as comunidades que se denominam de evangélicas estão crescendo de forma vertiginosa. Isso decorre, quase sempre, do desespero que toma conta de determinadas pessoas face à precariedade social e econômica em que vivem. É indiscutível que todas elas podem buscar conforto espiritual de acordo com o que acreditam. Isso é um direito assegurado pela atual Constituição. Lamentável é que muitas vezes a ansiedade pela salvação as levem a cair na lábia de espertalhões que prometem mundos e fundos e usam os dízimos para o enriquecimento pessoal e construção de verdadeiros impérios de comunicação com objetivo de impregnar mais e mais consciências, enquanto a maioria esmagadora dos fiéis continua vivendo da esperança de um dia alcançar o reino de Deus.
Outro problema é que as comunidades evangélicas vêm ficando cada vez mais melindrosas. Até parece que os dirigentes estão incutindo nas mentes dos “rebanhos” que eles pertencem a outro mundo e, portanto, não possuem defeitos, não podem ser questionados. Por essa linha de raciocínio, consideram simplesmente normal um programa ou novela televisiva apresentar crimes ou pecados cometidos por católicos, espíritas, budistas, umbandistas ou adeptos de outros credos. Agora, se, por acaso, o protagonista for caracterizado como evangélico, a coisa muda de figura. Algumas dessas igrejas já criaram até uma nova modalidade de reação, no caso a incitação para que os seguidores, de forma orquestrada, movam processos jurídicos contra quem ousar contestar seus métodos.
Antes de tomar atitudes deste tipo, os pastores estão na obrigação de saber separar o joio do trigo. Ou seja, ter discernimento para entender e explicar nos cultos que os autores de trabalhos baseados em ficção têm liberdade para criar enredos e personagens sem se importar em atingir este ou aquele segmento social. Ademais, quando querem passar para a mídia a condições de impuros, os evangélicos vão de encontro à celebre frase pronunciada por Jesus Cristo no episódio em que o povo queria linchar Madalena: “Quem não tiver pecados que atire a primeira pedra.”
(Editorial de minha autoria publicado no jornal Folha do Ceará)


criado por juracy.mendonca
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